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A Sombra e o Caçador

Sob um céu azul lavado, onde o sol desenhava sombras alongadas na relva, o Pointer Inglês Mutunzinho avançava com passos leves, narinas vibrando ao sabor do vento. Seu corpo esguio, talhado para a velocidade, tensionava-se como uma flecha prestes a ser lançada. A pelagem branca e fígado brilhava sob a luz, e seus olhos âmbar, fixos no horizonte, capturavam cada movimento – até mesmo o vago tremor de uma asa invisível.

Era primavera, época em que os campos se enchiam de pássaros fugidios, mas naquele dia, Mutunzinho perseguia algo diferente: uma sombra. Não havia odor, apenas o rastro de uma silhueta que dançava entre as folhas, projetada por um falcão que planava alto demais para ser alcançado. Para o Pointer, porém, era como se o próprio ar conspirasse para desafiar seu instinto. Seu focinho apontou para o chão, seguindo o contorno escuro que serpenteava entre as pedras. Um pássaro que não existia, diria um humano. Para Mutunzinho, era a caça mais intrigante.

As patas dianteiras congelaram de repente, e o corpo arqueou-se em uma postura clássica: cauda esticada, músculos imóveis, nariz direcionado como uma bússola. Era o point, a pose ancestral que dava nome à raça. Mesmo sem pressa, o ritual era sagrado. A sombra tremulou, desafiando-o, e Mutunzinho partiu em disparada, galopando sobre o terreno irregular. Seu peito amplo e pernas longas, herança dos galgos em sua linhagem, impulsionavam-no como um raio.

Por horas, ele correu, saltou, farejou. A sombra escapava, refazia-se, tornava-se miragem. Até que, exausto, o Pointer deitou-se sob uma árvore, o flanco subindo e descendo rapidamente. No silêncio, ouviu o canto distante de um pardal – real, tangível. Seus olhos semicerrados brilharam, e a cauda bateu leve no chão. A sombra fora uma ilusão, mas a próxima caça... ah, a próxima seria sua.

Ao longe, o dono assobiou. Mutunzinho ergueu-se, sacudiu a pelagem curta e correu em direção ao chamado, pronto para recomeçar. Afinal, para um Pointer Inglês, cada dia é uma promessa de novo desafio – seja ele de carne, pena ou simplesmente luz.

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